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[segunda-feira, maio 29, 2006]

Morango

Era para chamar Ruivão. Mestiço de persa com vira-lata. Todinho cor de laranja. Uma bolinha de pêlos bem fofa e linda. Chegou depois do Capitão, que era um filhotão também. Logo fizeram uma bela amizade, onde estava um, estava o outro. Mas ele não gostava de seu nome... Não havia nada que o fizesse olhar para mim quando eu chamava: Ruivão! Era uma chatice, um nome tão apropriado para aquele pedaço ruivo de fofura e lindeza.

Sempre assisti muito a programação infantil, lembro que na época tinha um personagem do programa da Eliana que cantava * Meu morango, meu morango lango*, e eu estava com a terrível mania de cantar esse refrão (mania que sempre tive com várias outras músicas bestas). Certa tarde eu estava pintando as paredes de um cômodo da casa e cantando igual uma louca: Meu morango, meu morango lango lulu, Meeeeu moraaango, meu morango lango lulu... E o Ruivão, que tinha uns três meses então, não saia de perto de mim. E eu observei que toda a vez que toda vez que gritava *Morango*, ele olhava. Parei de cantar e comecei a chamar: Morangoooo, Morangooooo. E ele olhava todas as vezes. Fui para o quintal e chamei: Morangoooo. Ele veio até mim, miando e ronronando de felicidade.

Foi então que eu percebi que ele queria ter o nome da minha fruta favorita, e não o nome de um personagem que o deixaria com a personalidade clichê. Ele escolheu ser chamado de Morango. E era uma delícia apertar, brincar com ele. Era uma mala velha, se abria pra todo mundo, adorava carinho na barriga. E era um contorcionista. Eu não acreditei quando o vi escapar para a gandaia certa noite passando através de uma fresta de um vitraux que estava emperrado. Ele conseguiu passar o corpo gordo de quase cinco quilos por uma fresta de dois centímetros e meio. E fugia pra gandaia. Sempre voltava quando o dia estava amanhecendo e deitava na minha cama. De preferência, em cima de mim...




por Lia Drumond * 10:55 a.m.


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